TUDO SE TRANSFORMA, ETERNAMENTE

Piazza San Pietro | Roma, 1995

Há tempos considerava a ideia de criar um perfil de Instagram dedicado exclusivamente à fotografia que desenvolvo como ofício. Pensado para ser diferente daquele blog diário, mais íntimo, restrito a amigos, pessoas mais ou menos conhecidas. Uma vez criado – está lá como @lucianacury_fotografia – decidir por onde começar e o que mostrar, dentre tantos e diferentes lugares por onde navego utilizando a linguagem fotográfica, tem sido um grande desafio. Enfrentei esse mesmo dilema na reconstrução deste meu site-portfolio, mas por ali (Instagram) as reflexões se ampliam um pouco mais, devido à própria interface do aplicativo e sua dinâmica como ferramenta de comunicação e interatividade.

Resolvi então apenas começar pelo começo, através das primeiras imagens que trouxe de uma longa viagem onde tive a oportunidade de exercitar um olhar comprometido apenas com minha maturidade naquele momento. Achei curioso observar que passados mais de 20 anos, ainda sou capaz de reconstruir o momento de cada click, de cada escolha feita. E reflito se minha visão de mundo teria mudado depois de tanto tempo, se hoje eu faria escolhas diferentes, se observaria o mesmo tema com outros olhos.

Daí que meus olhos são os mesmos, assim como os dedos que apertam o botão da câmera. Mas meu olhar, meu olhar se transforma a cada momento.

E quando releio o parágrafo anterior me ocorre que putz, nem meus olhos são os mesmos: eles hoje trazem uma estrutura física diferente também, que pedem lentes “corretivas” inclusive, e trazem uma não acuidade em nível fisiológico que poderia se contrapor a uma suposta “evolução” do olhar. No final das contas, nada nem ninguém é igual ao momento anterior e nem mesmo ao momento posterior – lição que a vida às vezes tenta nos ensinar, de tempos em tempos, de modos muito diferentes.

Neste ano de 2019 um retiro de meditação estruturado sob dez dias de silêncio me trouxe com bastante intensidade essa percepção do efêmero e de como a consciência sobre esta verdade pode trazer mais foco e objetividade sobre a nossa relação com o mundo. E recentemente, ao conversar com uma nova amiga, que se mostrou bastante empenhada tanto em sua carreira acadêmica – baseada em provas e experimentos – quanto em compreender aspectos existenciais que a fotografia traz em sua essência, me disse: “Olhar uma fotografia antiga é a prova viva de como a gente se transforma, de como nossa visão de mundo se transforma. É prova de que tudo é efêmero, tanto a dor quanto a alegria em certos momentos.”

Acredito que a única coisa talvez preservada ao longo de todo um percurso de vida(s) e que parece atravessar todas as nossas experiências, seja mesmo algo intangível – uma essência anterior ao nosso próprio dna. Alguns chamam de alma, outros de energia sutil.

Entre o efêmero e o eterno, temos a nossa frente um mundo de imagens registradas ou ainda não registradas. O que fazer com elas? Capturar, guardar, compartilhar, refletir, aprender, ressignificar – conscientes de que tudo se transforma, eternamente. E mesmo a foto ampliada em papel museológico também tem seu prazo de validade.